quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O chão sou eu

Eu estava de bruços, encharcado, jogado a esmo no chão. Eu não tinha razão - nem motivo, tampouco sanidade. Ninguém me incitou àquilo senão eu mesmo. Eu estava ali fazendo jus à terra que era meu lugar. Fadado à desolação, buscava entender o que faz um sujeito estar sujeito às suas próprias sujeiras. Esse monte de estórias impregnadas. Essa loucura toda estocada. Essa revira-volta autoritária. E minhas falácias só me entregavam mais e mais ao traste que me tornei. E essa martirização só reafirmava minha necessidade de tomar o meu ego à frente de minhas dores todas.
Eu já não sou o mesmo. Nem me dera se fosse. Eu que já fui outro não me mereço. Eu pertenço a este chão que ainda por cima me conforta. Ainda por cima. Se eu estivesse a não sei quantos palmos abaixo da terra, eu ainda não seria expurgado; seria expelido.
Eu... eu só tropecei e caí. E já estou assim todo dramático. Não me apetece mostrar minhas falhas e intimidades a mim que já sei. No cinema que é a vida, nesse chão que é o cenário, minha hipocrisia está em cartaz. Eu só preciso me levantar e recompor minha honra e reputação para que não me manchem. Este foi sempre o serviço da terra a toda vez que eu me encontrasse com ela quando meus anseios eram outros.
Me levantar não me tira da decadência - no entanto eu sei que não haverá mãos estendidas, porque eu sou meu próprio consolo, porque o chão sou eu.

- Um Escritor Qualquer​​

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Qual o sentido da vida?

A gente passa uma parcela da vida só a percebendo enquanto vida. O que esteve sempre ali, mas antes nos eram imperceptíveis dada a nossa história esboçada. O que sempre teve variáveis sentidos e lacunas para o desdenho na frase "Qual o sentido da vida?", hoje não é cética: é inibição.
E nossa percepção já não se é mais livre, pagã. É deturpada e criança reprimida.
No que tange a percepção, de quanto tempo precisamos para perceber as coisas?
No que tange as coisas, do que precisamos para ter percepção sobre elas?
A vida é mesmo essa filosofia do pensar e se calar. Até surgir, quando calhar, o canto do esmo. Valha-me a morte se a vida não é auto-suficiente. Cala-me o corte que me sangra ao ser impotente.
Faça-me o norte do sentido transparente.
Que eu serei o encargo de quem sente.

- Um Escritor Qualquer

Consciência

Há um pequeno intervalo entre a mão e o peito. A consciência mora no meio. Mora ali a conversão entre o bradar e o lamentar. O sentir e o sonhar. Está, também, a pessoa do abraço. Esta que vive no encaixe perfeito entre os dois. A consciência é quem impede que isso seja pleno. E quê culpa ela tem se vive na combustão entre o desdém e a compreensão?
Se te atormenta é porque apronta. Não te sai ileso da causa se te vais embora antes da valsa. O objetivo é ficar, arcar, viver e dançar a consciência das coisas. Você sobre as coisas. Sobre as coisas, você sob elas. Nelas e para com elas, você, diferente ou indiferente com a ciência, sabe dela tanto quanto ela sabe de você e faz questão de te lembrar quem é, o que fez e o que irá (des)fazer.
Sua consciência encara você?

- Um Escritor Qualquer

Licença Poética

O que dá aval para a licença poética é o não caber em si mesmo(a)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Sol)ando no Papel

Lápis coloridos e um pedaço de papel
Hora de inovar, reinventar o novo, mesmo que de novo

Um verde para o campo
Um marrom para as árvores
Um amarelo para a casa e para o sol

Um preto e um branco para o cachorro
O cinza para a calçada
Um laranja para a pipa e para o sol

Um rosa para a bola
Um azul para o chinelo
Um vermelho para a ferida e para o sol

De diversas formas para a montagem da paisagem, eu invento as cores
De diversas formas para a montagem das coisas, eu inverto as cores
O que não me atrevo a evitar é o sol, por isso ando, ainda só, em solo, sol

Multicores, ainda o mesmo sol
A mesma tarde
O mesmo retrato
A mesma lembrança
O mesmo trato
A mesma balança
O mesmo fato
Da mesma sustância
Do mesmo prato

E o sol põe-se antes do desenhar
Aí perco linhas
Nos traços mal laçados
Mas nunca deixo de desdenhar

Porque a tarde está no lápis
E nos campos floridos

Hora de acampar e reinventar ...o novo.

- Um Escritor Qualquer