segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Sol)ando no Papel

Lápis coloridos e um pedaço de papel
Hora de inovar, reinventar o novo, mesmo que de novo

Um verde para o campo
Um marrom para as árvores
Um amarelo para a casa e para o sol

Um preto e um branco para o cachorro
O cinza para a calçada
Um laranja para a pipa e para o sol

Um rosa para a bola
Um azul para o chinelo
Um vermelho para a ferida e para o sol

De diversas formas para a montagem da paisagem, eu invento as cores
De diversas formas para a montagem das coisas, eu inverto as cores
O que não me atrevo a evitar é o sol, por isso ando, ainda só, em solo, sol

Multicores, ainda o mesmo sol
A mesma tarde
O mesmo retrato
A mesma lembrança
O mesmo trato
A mesma balança
O mesmo fato
Da mesma sustância
Do mesmo prato

E o sol põe-se antes do desenhar
Aí perco linhas
Nos traços mal laçados
Mas nunca deixo de desdenhar

Porque a tarde está no lápis
E nos campos floridos

Hora de acampar e reinventar ...o novo.

- Um Escritor Qualquer

Impermanência

Correr mais que a pressa não é dinamismo
Tropeçar no mundo é solitário
Eu que dou voltas, não volto, cismo
A peça de tudo está ao contrário

Todos cogitam o final
Ninguém se contenta com o não
Eu que muitas vezes sou fatal
Eu nasci sem propósito, sem dor, nem cor, nem feição

Eu que tanjo minha história
Vejo tudo pelo buraco da fechadura
Sem fissura, rasura, rachadura
Apenas embaçado, sem bocado, nem lado
Sem a sombra da dúvida,
Na súbita incerteza de mim

Segure-me como frágil
Me quebre e me construa
Eu quero ser o erro que, ao consertar, seja fácil
A palavra em seu lábio, vulgos pronomes sem espaço
A letra que desmancha, desfaço
Que rodeia a mente, embaraço

Sem impermanência
Só mantendo a essência
Do que fica e que fecha ao que sai e vai abri(indo)
Pois eu adoro a sensação
De quando eu quebro as correntes
Do que chamamos de destino

- Um Escritor Qualquer

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Saída de incêndio

Amor, quando você começar a sentir desaforo
Porque já não te entendem
Corra para a parte traseira da casa:
Te deixei a porta dos fundos

Mas saia sem fazer barulho para que não te vigiem
Porque a madrugada carrega binóculos cegos
Que enxergam o nada
O nada barulhento sem som

Quando não te notarem a ausência, amor
Você ainda terá a companhia da
Noite com saudade do dia
Do pássaro que não assobia

Quando não mais creditarem confiança no que você faz
Saiba que eu sempre gostei das suas canções todas,
Do seu jeito de se vestir e da sua compulsão pela cor lilás

Só não me peça cigarro
Já estou no trago-ou-não-trago
Eu só respiro do teu ar
Sem me considerar viciado

Eu sempre fui muito descuidado
Vivendo perante o acaso
Na loucura de tampar orelhas do frio das palavras
Na covardia da viagem com malas

Mas eu aprendi que sou tempo
Em vias de mão dupla
Sem muita pretensão de cura
Só ecoando sonetos ao vento

Então não me espere para o jantar
Estou cheio de desalento
Porque, amor,
Eu sou saída de incêndio

- Um Escritor Qualquer

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Fera

Você já reparou na sua cara de bobo quando uma criança te pergunta e você não sabe responder?
Porque você se conformou em não precisar da resposta enquanto criança, porque as pessoas mais velhas também não te respondiam, porque até mesmo elas estavam conformadas, e assim disseminam a ideia de que está tudo bem não saber.
Aí você apequena a curiosidade de uma criança, tal qual fizeram com você e fizeram com as pessoas que te causaram isso.
E essa criança um dia tratará de seguir a inconformidade que um dia te fizeram engolir por causa de alguma pessoa cética que não teve a quem perguntar.
Então você engole saliva seca
Na tentativa, talvez
De transparecer o gosto da conformidade
Mas você falha
E se nasce uma fera em ti que
Engole questionamentos
E vomita "vá brincar"

Você se reconhece numa criança? Você chama isso de nostalgia, provavelmente
Sua saudade do que um dia você já foi é equitativa à sua capacidade de transformar crianças em você

Vá, depressa!
Seu tempo no decorrer dessas linhas já está acabando
Você tem uma rotina que te espera
Talvez você olhe a próxima criança com diferentes olhos
E ela jamais saberá enquanto criança o que você sabe enquanto fera

- Um Escritor Qualquer

domingo, 22 de outubro de 2017

Beco sem Saída

Eu vivo mesmo assim
Da vida ao temer
Do ouvido ao ensurdecer
Do tato ao prazer

Pôr a me ater
De um jeito a crer
Sem credo ou se abster
De nuvens a chover

E esse impasse de falar ou calar
Do inerte ao andar
Da mesa ao jantar
Do medo ao amar

A inconstância do ver
De ser ou sem-ser
O senso do querer
Sendo sem ter

Ao todo sem tudo
Ao luto em mudo
Da incerteza ao absoluto
Do separado ao junto

E agora sem o passe
Se ao futuro preocupasse
Do aluno sem classe
Um beco sem saída

- Um Escritor Qualquer