segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O que levarei para o caixão

Levarei para o caixão
meus olhos
que já brilharam como o sol
e que hoje estão apagados
como um farol durante o dia
Levarei para o caixão
meus pés
que um dia já me levaram
ao extremo de meu país
e que hoje rastejam pela casa
Levarei para o caixão
minhas mãos
que tanto escrevem poesia
e que hoje apenas desejam
deslizar no corpo da dama de preto
Levarei para o caixão
minha boca
que usei para cantar
as músicas que me distraiam
e que hoje anseia pela mudez
Levarei para o caixão
meus ouvidos
que foram feridos por palavras
e acariciados pelo silêncio
e que hoje imploram pela surdez
Levarei para o caixão
meu corpo
que suportou todos os ataques
e que hoje quer descansar
no profundo sono da eternidade

Por @Francisco José Fernandes Moutinho

Trans

Trans de transcorrer! Aquilo que descorre, que passa além.
Trans de transfigurar - aquilo que transforma, que altera.
Trans também de transformar - o que dá nova forma, o molde em constante evolução.
Transigência - tolerância!
Trans é transmissão - que transmite significado por si só. É aquilo que movimenta.
Trans transparece! É o ato de manifestar-se; de revelar-se!
Mais do que escrever, trans transcreve - reproduz.
É transcendente: ultrapassa o normal.
Trans TRANSBORDA: não cabe dentro de seu corpo.
Transfere - é empatia.
É transparente! Aquilo que deixa atravessar a luz.
Transpira como todos; e exala como si só.
Trans é sinônimo de salvar vidas; através de transfusão e transplante.
Trans é transporte: sua carga é percorrida de seu corpo para sua verdadeira essência.
Faça de trans, transação. Deposite respeito.
Só não faça de trans, transgressão. Não é uma infração, nem quebra de mutualidade.
E de transtorno - contrariedade, desarranjo e desordem, basta a constante luta pela paz que todos buscamos.
Seja Trans. Transmute.

- Um Escritor Qualquer

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O chão sou eu

Eu estava de bruços, encharcado, jogado a esmo no chão. Eu não tinha razão - nem motivo, tampouco sanidade. Ninguém me incitou àquilo senão eu mesmo. Eu estava ali fazendo jus à terra que era meu lugar. Fadado à desolação, buscava entender o que faz um sujeito estar sujeito às suas próprias sujeiras. Esse monte de estórias impregnadas. Essa loucura toda estocada. Essa revira-volta autoritária. E minhas falácias só me entregavam mais e mais ao traste que me tornei. E essa martirização só reafirmava minha necessidade de tomar o meu ego à frente de minhas dores todas.
Eu já não sou o mesmo. Nem me dera se fosse. Eu que já fui outro não me mereço. Eu pertenço a este chão que ainda por cima me conforta. Ainda por cima. Se eu estivesse a não sei quantos palmos abaixo da terra, eu ainda não seria expurgado; seria expelido.
Eu... eu só tropecei e caí. E já estou assim todo dramático. Não me apetece mostrar minhas falhas e intimidades a mim que já sei. No cinema que é a vida, nesse chão que é o cenário, minha hipocrisia está em cartaz. Eu só preciso me levantar e recompor minha honra e reputação para que não me manchem. Este foi sempre o serviço da terra a toda vez que eu me encontrasse com ela quando meus anseios eram outros.
Me levantar não me tira da decadência - no entanto eu sei que não haverá mãos estendidas, porque eu sou meu próprio consolo, porque o chão sou eu.

- Um Escritor Qualquer​​

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Qual o sentido da vida?

A gente passa uma parcela da vida só a percebendo enquanto vida. O que esteve sempre ali, mas antes nos eram imperceptíveis dada a nossa história esboçada. O que sempre teve variáveis sentidos e lacunas para o desdenho na frase "Qual o sentido da vida?", hoje não é cética: é inibição.
E nossa percepção já não se é mais livre, pagã. É deturpada e criança reprimida.
No que tange a percepção, de quanto tempo precisamos para perceber as coisas?
No que tange as coisas, do que precisamos para ter percepção sobre elas?
A vida é mesmo essa filosofia do pensar e se calar. Até surgir, quando calhar, o canto do esmo. Valha-me a morte se a vida não é auto-suficiente. Cala-me o corte que me sangra ao ser impotente.
Faça-me o norte do sentido transparente.
Que eu serei o encargo de quem sente.

- Um Escritor Qualquer

Consciência

Há um pequeno intervalo entre a mão e o peito. A consciência mora no meio. Mora ali a conversão entre o bradar e o lamentar. O sentir e o sonhar. Está, também, a pessoa do abraço. Esta que vive no encaixe perfeito entre os dois. A consciência é quem impede que isso seja pleno. E quê culpa ela tem se vive na combustão entre o desdém e a compreensão?
Se te atormenta é porque apronta. Não te sai ileso da causa se te vais embora antes da valsa. O objetivo é ficar, arcar, viver e dançar a consciência das coisas. Você sobre as coisas. Sobre as coisas, você sob elas. Nelas e para com elas, você, diferente ou indiferente com a ciência, sabe dela tanto quanto ela sabe de você e faz questão de te lembrar quem é, o que fez e o que irá (des)fazer.
Sua consciência encara você?

- Um Escritor Qualquer