sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Entre

Às vezes na calada da noite
Eu fico imaginando nós dois
Em (entre)linhas distantes
Mora o nosso antes, o agora e o depois

Nosso desafio é acirrado
Você quer perder para eu ganhar
Eu quero ser o sonho acordado
Você quer ser sem sonhar

A vida é bem mais que isso
De se esconder pra se encontrar
Do inferno ao paraíso
Do te conhecer ao te amar

Você que me ganha na façanha
De me fazer sorrir sem relutar
A trilha que me forma a montanha
O beijo que me entrega sem ar

Se te sou mais que entrega e sorriso
Que me fale mais uma vez pra acreditar
Se quer que eu vá embora ou se fico
Não subestime a sorte de esperar

Mas meu amor uma coisa é certa
Se estou aqui por você
É mais pela ideia que mesmo morto
Eu sei que vivi por você

- João Oliveira / Um Escritor Qualquer

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Há uma arma apontada para a minha cabeça

O dedo no gatilho não treme,
O risco nascente grita dor;
O som que lhe sai não é estridente,
A morte que se esvai é pavor.

A bala, pontiaguda, se fura,
Assegura o enterro iminente;
O chão que me porta, ternura,
Banhado de sangue quente.

A dor não me ampara, machuca,
Meu inimigo que me assiste, ri e sente;
A vergadura do braço que a segura,
É a certeza do ato conivente.

Se agora não ouço por pudor,
E a minha presença é ausente;
Que ao menos palavras de amor,
Tornem-se minha memória mais recente.

A arma na minha cabeça,
Pressionada sem compaixão;
Assinala a última certeza:
A arma é minha, mas o dedo não.

sábado, 8 de setembro de 2018

Prelúdio

Meu relógio de bolso não tem compaixão com meus atrasos;
Os assobios da matina são para mascarar minha rouquidão;
Os nós são minhas tentativas frustradas de fazer laços;
Meu ser, tardio, é simples estadia de coração.

O sonho acumulado é por falta de anseio;

A tristeza serena é por cansaço;
O beijo, sem pena, é por desejo;
A pena, sem beijo, é abraço.

Minha cama, sem companhia, é desperdício;

Meu espelho, sem verdade, não reflete;
Minha sina, sem dúvida, é um vício;
Meu êxtase quer exalar-se, mas não cede.

A profundidade, prelúdio da queda;

O gosto, prelúdio do saciar;
O valor, prelúdio da moeda;
Você, prelúdio de amar.

- João Oliveira / Um Escritor Qualquer

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Eu Juro

Se eu lesse mais
uma folha de jornal
eu juro que não
me continha

As colunas tinham

duplo sentido
invertido, sem
sinal de linhas

Num idioma incapaz

de ser traduzido
sem a lupa e o
dedilhar ficcional

E a mente tateava

as manias tiranas
de dar rugas às
margens esbeltas

E eu me debrucei

contra o assento
para suspirar o
nascer do devaneio

Mas se eu lesse mais

Uma folha de jornal
eu juro que não
juraria

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O que levarei para o caixão

Levarei para o caixão
meus olhos
que já brilharam como o sol
e que hoje estão apagados
como um farol durante o dia

Levarei para o caixão
meus pés
que um dia já me levaram
ao extremo de meu país
e que hoje rastejam pela casa

Levarei para o caixão
minhas mãos
que tanto escrevem poesia
e que hoje apenas desejam
deslizar no corpo da dama de preto

Levarei para o caixão
minha boca
que usei para cantar
as músicas que me distraiam
e que hoje anseia pela mudez

Levarei para o caixão
meus ouvidos
que foram feridos por palavras
e acariciados pelo silêncio
e que hoje imploram pela surdez

Levarei para o caixão
meu corpo
que suportou todos os ataques
e que hoje quer descansar
no profundo sono da eternidade